Mais que um Prato de Comida: 5 Lições sobre o Combate à Fome na Assistência Social
- Re Sociali

- há 21 horas
- 4 min de leitura

O Brasil vive um paradoxo que desafia nossa consciência coletiva: consolidamo-nos como uma das maiores potências mundiais na produção de alimentos, mas ainda convivemos com o fantasma da fome. Recentemente, celebramos um progresso notável, com a redução da insegurança alimentar grave de 33,1 milhões de pessoas em 2022 para 8,7 milhões em 2023. Entretanto, essa oscilação histórica — o "efeito ioiô" que nos fez sair do Mapa da Fome em 2014 para nele retornarmos logo em seguida — revela que a solução exige mais do que ações emergenciais. O desafio é urgente e reflexivo: por que a resposta ao desamparo alimentar precisa ir muito além do simples repasse de comida? No Sistema Único de Assistência Social (SUAS), entendemos que o combate à fome é a porta de entrada para a dignidade e a emancipação.
1. A Fome dói no Corpo e na Dignidade (A Dimensão Imaterial)
A vulnerabilidade não é apenas uma contagem de calorias ausentes; ela possui uma dimensão subjetiva profunda que o SUAS, fundamentado nos estudos de Bader Sawaia, define como "Sofrimento Ético-Político". Não se trata apenas de tristeza, mas de um sofrimento gerado pelo reconhecimento social negativo e pelo sentimento de inutilidade política. Para quem tem fome, a pobreza é vivenciada como um processo de desqualificação que fere a identidade e gera vergonha, estigma e inferioridade.
A escritora Carolina Maria de Jesus, em seu relato visceral, capturou essa dor imaterial que acompanha a privação material:
"Passei no Frigorífico para pegar os ossos. No início eles nos dava linguiça. Agora nos dá osso (...) Hoje eu fiz arroz e feijão e fritei ovos. Que alegria! (...) O bacalhau apodrece e os atacadistas jogam no lixo, e jogam creolina para o pobre não catar e comer. Os meus filhos nunca comeu bacalhau. Eles pedem: — Compra, mamãe! Mas comprar como! a 180 o quilo."
Reconhecer que a fome fere a dignidade antes de ferir o corpo é o que diferencia o atendimento humanizado da mera distribuição de insumos.
2. A Cesta Básica é o Gancho, não o Destino Final
É vital distinguir o assistencialismo — caritativo e pontual — da Assistência Social como direito garantido pelo Estado. No cotidiano do CRAS, a entrega da cesta de alimentos é um Benefício Eventual (provisão suplementar e temporária). Ela funciona como um "gancho": atende à urgência da barriga que dói, mas sua função técnica é trazer a família para o Trabalho Social com Famílias e Territórios (TSFT).
A primeira "entrega" do SUAS não é o alimento, mas a "escuta qualificada". É esse acolhimento que permite transitar da dependência para a autonomia. O benefício não deve se tornar um vício ou um substituto permanente para políticas estruturais, mas sim o alicerce para garantir as seguranças socioassistenciais:
Acolhida: A escuta que reconhece o sujeito e suas necessidades.
Segurança de Rendimento (Sobrevivência): O acesso à renda via Bolsa Família ou BPC para garantir a subsistência básica.
Autonomia: O desenvolvimento de capacidades e o protagonismo da família.
Convívio: O fortalecimento dos laços familiares e o fim do isolamento social.
3. Comer Junto é um Ato de Resistência e Vínculo
Uma vez que a família passa pelo atendimento inicial, o trabalho social utiliza o ato de comer como ferramenta para a segurança de convívio. Surge aqui o conceito de comensalidade: o entendimento de que a alimentação ultrapassa o biológico para se tornar social, cultural e simbólica. Preparar e partilhar o alimento cria "colas" no tecido social, transformando nutrientes em afeto.
O PAIF (Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família) deve valorizar o sabor, as tradições locais e o prazer da mesa. Comer junto não é apenas saciar a fome, é um ato de resistência cultural e uma estratégia para fortalecer vínculos e identidades territoriais.
4. O Território é um Ator Vivo no Acesso à Alimentação
O local onde se vive não é apenas um cenário passivo; o território é um agente que produz ou combate a fome. Ele pode se manifestar como um Deserto Alimentar, onde o acesso a itens frescos é impossível, ou como um Pântano Alimentar, onde há abundância apenas de ultraprocessados baratos e nocivos.
Para transformar esse "Território-Ator", o SUAS foca no fortalecimento do Capital Social, que são as redes de confiança e cooperação local.
O fortalecimento do Capital Social envolve três dimensões: o Bonding (laços internos da comunidade), o Bridging (pontes com outros grupos) e o Linking (conexões com o poder público e instituições).
Transformar a infraestrutura social do território significa mobilizar essas redes para que hortas comunitárias e cozinhas solidárias substituam a escassez pela soberania alimentar.
5. A Fome tem Cor e Gênero (O Olhar Interseccional)
A insegurança alimentar no Brasil não é democrática; ela escolhe alvos preferenciais baseados no racismo e no patriarcado estrutural. Os dados são inequívocos sobre como a fome atinge desproporcionalmente os lares chefiados por mulheres negras, exigindo políticas que não sejam neutras, mas interseccionais:
22% dos domicílios chefiados por mulheres negras enfrentam insegurança alimentar grave.
7,8% é o índice em lares chefiados por homens brancos.
Combater a fome exige enfrentar as raízes da desigualdade que colocam as mulheres negras na base da pirâmide de desproteção social.
Conclusão: Um Olhar para o Futuro
A erradicação da fome exige uma articulação intersetorial sem precedentes. Enquanto o SISAN foca no acesso e na produção (através de Cozinhas Comunitárias e PAA), o SUAS atua na proteção, identificação de vulnerabilidades e garantia de direitos, e o SUS monitora a vigilância nutricional.
A alimentação deve ser encarada como um Direito Humano Fundamental e uma expressão de soberania, jamais como um favor. O TSFT tem o papel de converter a assistência em emancipação. Fica a provocação para gestores e técnicos: Como podemos transformar o ato de comer em uma ferramenta permanente de emancipação e cidadania em nossos territórios?
Fonte:




Comentários