O SCFV na Prática
- Re Sociali
- 14 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de jul. de 2025

Atividades‑meio como tecnologia social de convivência e fortalecimento de vínculos
Quando a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (Res. CNAS 109/2009) instituiu o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), deixou claro que o centro do trabalho não é a “ocupação do tempo livre”, mas sim a produção de encontros intencionais capazes de gerar pertencimento, corresponsabilidade e cidadania. A experiência consolidada em planos de ação recentes – que integram práticas esportivas, artísticas e culturais ao SCFV – oferece lições valiosas sobre como estruturar essas ações com rigor técnico e impacto social.
1 | Da concepção de convivência ao desenho metodológico
Segundo Sposati (2012 apud BRASIL, 2017), convivência é forma e vínculo é resultado: o modo como organizamos as interações determina a qualidade dos laços que emergem delas. Para que essas interações sejam efetivas, cinco pilares metodológicos se mostram indispensáveis:
Diagnóstico socioterritorial – A leitura crítica de dados populacionais, renda, violência e acesso a serviços orienta a escolha de territórios prioritários e o desenho das atividades‑meio.
Eixos norteadores – O planejamento precisa dialogar com expressão/afetividade, aprendizagem/sociabilidade e direitos/deveres, garantindo intencionalidade educativa clara.
Percursos trimestrais – Cada grupo vivencia roteiros de até doze semanas, com objetivos, registro contínuo e avaliação final, para que usuários e equipe visualizem avanços. O(A) coordenador(a) é a principal referência para garantir estes três primeiros itens.
Encontros estruturados – Toda sessão combina acolhida, atividade‑meio e fechamento reflexivo, reforçando a articulação entre experiência vivida e competências trabalhadas. Os encontros têm o(a) educador(a) social como a figura principal.
Trabalho social essencial – Escuta qualificada, prontuários, orientação e rede intersetorial sustentam as oficinas e atividades, evitando que elas se tornem ações isoladas. Aqui, assistente social e psicólogo(a) fazem essa diferença.
2 | Atividades‑meio: muito além da “aulinha”
No SCFV, dançar, pintar, grafitar ou praticar capoeira não é um fim em si. É meio pedagógico para alcançar resultados de proteção:
Esporte cooperativo – Modalidades como futsal ou voleibol, com regras adaptadas para promover solidariedade, ajudam a trabalhar disciplina, limites e resolução de conflitos.
Expressões artísticas – Teatro‑fórum e slam de poesia estimulam pensamento crítico, protagonismo e empatia.
Tecnologia social – Oficinas de audiovisual ou robótica podem ampliar repertório cultural e projetar trajetórias formativas.
Cultura popular – Maracatu, capoeira angola ou percussão fortalecem identidade e pertencimento comunitário.
A escolha da linguagem depende do perfil etário, dos interesses dos usuários e, sobretudo, das competências pessoais e relacionais que se pretende desenvolver.
3 | Competências pessoais e relacionais em profundidade
A experiência prática tem mostrado que trabalhar competências em camadas facilita a mensuração dos resultados. Adaptando o modelo de Silva (2021), conseguimos montar planos de ação conciliando as competências aos eixos referenciados na tipificação nacional, por exemplo:
Eixo "Eu Comigo" – Desenvolve autonomia, autorregulação emocional, autoestima e resiliência. Atividades introspectivas (artes visuais, escrita de diário, yoga infantil) favorecem esse eixo.
Eixo "Eu Com a Família" – Fortalece comunicação afetiva, cuidado mútuo e definição de limites. Rodas de culinária familiar, projetos “memórias da minha casa” e oficinas de fotografia intergeracional conectam gerações e ampliam diálogo.
Eixo "Eu Com os Outros" – Promove empatia, cooperação e convivência solidária. Jogos de tabuleiro cooperativo, teatro improvisado ou gincanas de desafios coletivos geram situações de negociação e confiança.
Eixo "Eu Com a Cidade" – Alavanca cidadania, participação social e senso de pertencimento ao território. Mapeamentos afetivos do bairro, mutirões de hortas urbanas ou podcasts comunitários transformam usuários em agentes do próprio lugar.
Cada competência possui marcadores observáveis (ex.: “verbaliza sentimentos” ou “propõe regras para o grupo”), que a equipe registra em relatórios trimestrais, assegurando monitoramento contínuo.
4 | Exemplo de fio de ação anual
Mês 1‑2 – Laboratório metodológico: capacitação da equipe em SCFV, definição de instrumentos de registro e implantação piloto de duas oficinas (dança urbana e grafite).
Mês 3‑12 – Consolidação: diversificação de atividades‑meio (percussão, futsal cooperativo, audiovisual), com percursos trimestrais e avaliações participativas.
Ano 2 – Expansão controlada: inclusão de oficinas tecnológicas e ambientais, extensão territorial para áreas de maior vulnerabilidade e incorporação de novos profissionais ao time técnico.
5 | Monitoramento, avaliação e resultados esperados
Indicadores de processo (frequência, engajamento, permanência) convivem com indicadores de resultado (evolução das competências, redução de violações, aumento de participação cidadã). Quando a metodologia é aplicada com rigor, o SCFV produz:
diminuição de reincidência de violência e evasão escolar;
ampliação de acesso a serviços e direitos;
fortalecimento da função protetiva da família;
redes comunitárias mais solidárias.
Esses efeitos confirmam a premissa de que atividade‑meio bem conduzida gera vínculo, e vínculo gera proteção.
Considerações finais
Implantar o SCFV é combinar análise territorial, intencionalidade pedagógica e trabalho social qualificado. As atividades‑meio são o coração pulsante desse processo: convertendo esporte, arte e cultura em dispositivos de cuidado, elas qualificam vínculos e expandem direitos. Ao apostar num desenho metodológico sólido e numa equipe preparada, os territórios ganham um serviço capaz de transformar vulnerabilidade em potência coletiva.
Referências
Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social. Concepção de convivência e fortalecimento de vínculos. Brasília, DF: MDS, Secretaria Nacional de Assistência Social, 2017.
Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Resolução CNAS nº 109, de 11 nov. 2009. Brasília: MDS, 2009.
Silva, Késsia Oliveira da; et al. Caderno de orientações técnicas do serviço de convivência e fortalecimento de vínculos para crianças de 0 a 6 anos [livro eletrônico]. 1. ed. Brasília: Késsia Oliveira da Silva; Ministério da Cidadania, 2021. PDF.
